domingo, 13 de dezembro de 2015

DEVIA MORRER-SE DE OUTRA MANEIRA

Terça-feira, 7 de abril de 2015
DEVIA MORRER-SE DE OUTRA MANEIRA
Devia morer-se de outtra maneira.
transformamo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhã, convocaríamos os amigos mais intimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer: " Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem hoje, às 9 horas. Traje de passeio."

E, então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, víriamos todos assitir à despedida. Apertos de mãos quentes. ternura de calafrio. "Adeus!  Adeus!" E pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes... ( primeiro, os olhos ... em seguida, os lábios ... depois o cabelo...) a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo... tão leve... tão súbtil .... tão pólen ... como aquela nuvem além (vêem?) - nesta tarde de Outono ainda tocada por um vento de láios azuis ...

José Gomes Ferreira

in blog de Rita Baleiro : http://como1livroaberto.blogspot.pt/2015/04/devia-morrer-se-de-outra-maneira.html

S/ TÍTULO

Há encantos e desencantos. Várias faces no mesmo ser. Há dúvidas e certezas. Mentiras e verdades. Há dias e noites. Sombras e luzes. Há prantos e risos. Momentos de ódio. Actos de amor. Há chuvas ácidas e granizos. Ventanias. Raios de sol sublimados. Há mãos douradas. Abraços infinitos. Há luares abençoados. Mares indefinidos. Há amizades perpétuas. Estios efémeros. Enganos indescritíveis. Há instantes perdidos. Águas furtadas. Túneis amarelecidos. Há dores imensas. Veleidades. Segredos adormecidos. Há ignorâncias exaltadas. Talentos recolhidos. Há arco-íris. Palco. Máscaras. Injustiça desmedida. Há poesia revelada. Retrato falado. Cântico sentido. Há vida. Morte. Há princípio. Fim.  

Célia Pires  14 de Dezembro 2015

António Variações - O Melhor de António Variações

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

TERESA

Não, não iria cair na asneira de fazer o que na sua cabeça se formara há muito… morrer
Não tinha coragem… era cobarde mesmo!!! Pensava nas diversas maneiras e entre tantas que lhe surgiam, achava que todas elas eram estranhas e esquisitas.
Um saco de plástico bem apertado à volta do pescoço, começar a respirar lentamente para dentro do saco e aos poucos, muito aos poucos, começaria a desfalecer… talvez fosse uma maneira… mas era demasiado banal…
Fazer um cocktail de comprimidos, centenas deles, calmantes, antidepressivos, analgésicos e outros que encontrasse na gaveta , batidos no liquidificador com fruta agradável, como morangos, bananas, maçãs, limão,  e  beber de um trago um grande copo daquele sumo… e depois…. Será que o estômago iria aguentar tanto liquido? o mais certo era ter que vomitar tudo aquilo… não , não era a melhor maneira…
Enforcar-se, pendurar-se  de uma trave da casa numa corda, mas nem sabia dar o nó? Nunca soube dar nós e ainda por cima, achava horrível morrer de enforcamento, ficar ali pendurada a balouçar até que a fossem encontrar… língua de fora… roxa…. olhos esbugalhados … também não era a forma mais simpática que queria para morrer…
Com uma arma de fogo????? Nem pensar!!!! Tinha horror a armas de fogo. Tinha horror ao barulho do tiro. Tinha horror a pensar que ficaria com o corpo, ou melhor , a cabeça toda estilhaçada…. sangue… miolos…. massa encefálica… tudo espalhado pela divisão… e se não morresse? Pior ainda…. Pois ela pensava em morrer mesmo… não queria ficar marcada para o resto da vida…
Teresa, conhecera há muitos anos uma mulher que se quis suicidar com lixivia. Bebeu lixivia e o tubo digestivo ficou todo queimado. E não morreu…
 O esófago ficou de tal modo queimado que teve que fazer uma cirurgia onde o esófago foi substituído pela tripa do intestino delgado. Nunca mais teve saúde. Não podia comer quase nada.
Um dia, foi fazer uma endoscopia e descobriram-lhe células cancerosas no intestino delgado que estava a fazer de esófago…sofreu muito, foi operada várias vezes… e finalmente, depois de muito sofrimento para ela e para a família, finalmente morreu… Durante mais de 15 anos, esta mulher viveu num sofrimento enorme, e teve várias vezes oportunidade de dizer à família que se tinha arrependido do acto estúpido de se suicidar bebendo lixívia… Teresa sabia que nunca iria escolher esta forma de morrer!
Sabia que havia muitas outras formas…. Mas agora não queria pensar em mais nenhuma… todas as achava escabrosas… uma desagradáveis para ela, outras desagradáveis para quem a fosse encontrar… 
Iria continuar a ser cobarde…  Afinal havia tanta gente a lutar pela vida… a sofrer tratamentos terríveis para se manter à tona… e agora ela ia fazer esta asneira??!!! O melhor seria esperar tranquilamente a hora… a hora  que chega para todos… 

ISABEL

Não sabia o que sentia. Um aperto no peito, do lado do coração fazia-a respirar bem fundo, mas o oxigénio não chegava lá. Apetecia-lhe dar um grito, um aiiiiii,  dar um grande aiiiii…! E dizia para si: mas porque estou eu assim? Porque me apetece respirar tão fundo, dar um ai, que não seria um ai, seria um grito, um grito de leoa ferida?
 Mas não o poderia fazer… a vizinha do quintal do lado ia assustar-se e ia querer saber a razão daquele grito. Daquele grito que vinha bem cá de dentro… bem junto do coração…. Claro que saíra das cordas vocais… mas ele tinha-se formado muito, muito mais lá no fundo… Do lado esquerdo do coração que sentia tão apertado… junto ao buraco … aquele buraco que se formara no dia em que a filha tinha partido, de um modo tão inesperado, tinha partido para sempre, para o mundo sideral, para a estrela que a esperava desde que nascera.  
Isabel nunca mais foi a mesma, e sentia que em vez de se ter tornado mais meiga, mais tolerante, menos agressiva, sobretudo nas palavras, cada vez se tornava mais agreste, mais revoltada, mais zangada com a vida.
Diziam-lhe: Não há vida sem romance… e a maioria do romance é sempre bem negro.
Ela ouvia, mas não aceitava. Ouvia quem a queria ajudar mas não conseguia que as palavras das amigas lhe ficassem no cérebro… lhe mudassem a maneira de pensar ou de agir.
Tinha momentos em que lhe apetecia partir tudo o que estava à sua volta, partir com um grande estrondo a grande tigela de vidro, que sabia iria partir-se em mil pedacinhos, em mil pedacinhos que se espalhariam pela cozinha, por baixo dos armários, por baixo dos pés, e que depois ainda ia ter que apanhar, varrer todos aqueles vidros minúsculos que se esconderiam nos locais mais incríveis! Não lhe apetecia varrer , queria descanso… queria estar parada e calma, não lhe apetecia andar na cozinha a apanhar vidros despedaçados, minúsculos, invisíveis, bicudos… prontos a espetarem-se-lhe nas solas das pantufas e que se iriam alojar nos dedos dos pés, e de tão pequenos nem os conseguiria ver… só sentiria a dor aguda que lhe provocavam…
Tinha alturas em que lhe apetecia ser um pássaro e voar, voar e não mais voltar. Voar para um mundo onde não fosse obrigada a sorrir, a conviver, a olhar os rostos alegres, tristes , amargurados ou enrugados dos habitantes da vila. Não lhe apetecia ver ninguém… mas isso era anti-social… tinha que dizer bom-dia, olá, cumprimentar e sorrir a todos por quem passava. Interessava-se pela  mulher doente do homem da mercearia, por saber como o neto da senhora da retrosaria estava a crescer, quantos dentinhos já tinha, se já gatinhava… e todos, por quem passava,  pensavam que ela estava bem, que apesar do rosto carregado com que se olhava ao espelho e via os olhos tristes e cansados, tinha conseguido ultrapassar a dor da perda da filha… e ela tentava enganá-los sorrindo, falando, ouvindo os seus problemas e os seus lamentos… mas o que Isabel queria era não estar ali, queria estar fora daquele pequeno mundo…

Quando ia para perto do mar, olhava aquela vastidão de água, olhava e pensava como seria fácil entrar por ali adentro, devagar, muito devagar, e começar a perder o pé, e a sentir que a água iria entrar-lhe nos ouvidos, depois caminharia mais um pouco e ficaria submersa naquela água salgada… e deixar-se-ia ir… e não se debateria porque o que ela queria era ir… ir… ir para lá do horizonte… mesmo que para isso tivesse que engolir muita água, muita água salgada, amarga, amarga como era a sua vida…

sexta-feira, 20 de março de 2015

DA POESIA AOS PÉS




“Nós nunca estamos verdadeiramente onde estamos
Viajamos.”
Jaime Salazar Sampaio, "O Mar não precisa de poetas"

Após uma aula sobre as marcas dos pés no chão da nossa literatura na Academia Sénior de Estremoz às simpáticas e atentas alunas da minha querida Zuzu e outras maravilhosas pessoas que quiseram aparecer, depois de me inebriar com o ar do sempre reconfortante Alentejo berço, numa cidade particularmente estimulante das minhas memórias, com belas janelas, saudades da presença viva de António Telmo, as sempre misteriosas cegonhas, as nobres oliveiras centenárias, e tantos tantos outros doces recordares, finalmente o meu corpo baixou ao sono, sob um tecto de traves a lembrar o céu das minhas noites em cama de avó. Aos meus pés, Pantufa, a gatinha da Zuzu e do Zé, deitou-se poeticamente sobre a manta de rosetas e ali ficou toda a noite e velar ambos os sonos: o meu e o seu silencioso ronronar.
No meu ouvido adormecido, reverberava ainda um dos poemas lidos na aula:
"TOMÉ NATANAEL
Leva nas mãos o arco
E às costas o violino
Grande como um barco.
A música é maior do que o menino.
Mas sem esforço ou cansaço
O leva pela estrada o infinito
E à distância de um só seu passo
Descuidadamente finito.
A música não pesa
Nem o som que conduz
Por isso a estrada é um rasgo de luz."
António Telmo

sexta-feira, 6 de março de 2015

Do Tempo da Outra Senhora: Universidade Sénior de Sousel

Do Tempo da Outra Senhora: Universidade Sénior de Sousel: A mesa do Encontro. Hernâni Matos, Zulmira Baleiro e Joana Reis.  A Universidade Sénior de Sousel vem promovendo mensalmente encontro...

Hemáni Matos



Notas biográficas enviadas pelo meu amigo Hernâni Matos para preparação da Conversa com ... do dia 24 de Fevereiro de 2015


Desde os longínquos tempos do bibe e do pião que é recolector de objectos materiais que fazem vibrar as tensas cordas de violino da sua alma. Nessa conjuntura se tornou filatelista, cartofilista, bibliófilo, ex-librista e seareiro nos terrenos da arte popular, muito em especial a arte pastoril e a barrística popular de Estremoz.

Respigador nato, cão pisteiro, farejador de coisas velhas, o seu olhar cirúrgico procede sistemática e metodicamente ao varrimento de scanner no mercado das velharias em Estremoz, no qual é presença habitual e onde recoleta objectos que duma forma virtual, pré-existiam no seu pensamento,

O fascínio da ruralidade e o culto da tradição oral, levam-no a procurar o convívio de camponeses, artesãos e poetas populares, com os quais procura aprender e partilhar saberes.

A arte pastoril, um dos traços mais marcantes da identidade cultural alentejana, integra as suas memórias materiais de recolector. Para além do acto da colheita e mais que o fascínio da posse, importa-lhe a possibilidade de dissecação de cada peça recolhida e a cumplicidade com o autor no próprio acto de criação, constituindo um registo para memória futura e uma afirmação vigorosa da identidade cultural transtagana.

Perfilha há muito a ideia de que é necessário estabelecer pontes de entendimento entre as pessoas, Já que a partilha cúmplice de ideias e valores comuns, viabiliza a edificação conjunta de arquitecturas, facto que induzirá e consolidará laços de união entre os intervenientes.

Uma das muitas coisas que partilha com os outros é a escrita, instrumento de libertação do Homem. Filho de alfaiate, aprendeu a alinhavar palavras, que permitem cerzir ideias com que se propagam doutrinas. Esse o sentido da sua intervenção cívica,

Escritor, jornalista e blogger intervém em domínios como a História Postal, a História Popular de Estremoz, a Etnografia e a Cultura Popular Alentejana, publicando textos, apresentando comunicações e montando exposições temáticas e iconográficas.

Furiosamente independente, incisivo e cáustico quanto baste, mas sempre preciso. Procura levar tudo às últimas consequências e como franco-atirador do pensamento e da acção, busca fazer o varrimento da transversalidade dos saberes.

Depois disso, a síntese dialéctica é um ovo de Colombo nascido no cú da galinha da sua cabeça.

A AVÓ DOLORES





A sensação de perda é terrível. Viemos ontem de Amareleja,pois nós e os teus pais decidimos ficar mais um dia, para deixarmos as contas organizadas e a casa mais ou menos em ordem. A casa ficou fechada... até ver....
A D. Rosa, que ia dormir com a avó Dolores diariamente, foi buscar os edredons e as coisas pessoais e eu e a tua mãe ainda estivemos a conversar com ela um pouco. Ela já dormia lá a casa com a avó há 2 anos e gostava muito da avó Dolores, diz que sempre se deram muito bem e que a avó tinha um feitio tão bom que nunca houve nada entre elas; pelo contrário , a avó Dolores nos seus 90 e muitos anos tinha uma atitude de uma pessoa nova, sem implicar, sem ser rabugenta, sempre com uma atitude simpática, sorridente e bem disposta. O único inconveniente era a falta de ouvido, o que junto à sua característica de pessoa pouco faladora, fazia com que muitos serões passassem a olhar para a televisão ( a verem a telenovela que seguiam)  e  pouca conversa havia entre elas. 
Vai deixar-nos muitas saudades, pois foi sempre aquela pessoa, discreta, mas atenta aos outros. Foi uma avó fantásticas para os netos e todos vocês (netos)  têm óptimas recordações dela ( os bolos que tu fazias com ela! a disponibilidade constante para com todos nós, os almoços e jantares fantásticos que nos oferecia! as pupias que  logo pela manhã ia comprar à padaria para que quando nos levantássemos tivéssemos pão fresco e bolos quentes para o pequeno almoço) tantas e tantas atenções que ela nos proporcionava... sem um ar de cansado, sem um ar de enfado, sem uma palavra mais brusca.
Todos nós vamos recordar a avó Dolores como aquela pessoa de coração muito bondoso, sempre disponível para os outros, sempre com um sorriso meigo a receber-nos ao portão da casa, a preparar as refeições na cozinha do quintal, andando (correndo tanto de inverno como de verão) de uma cozinha para a outra, pelo menos uma boa dúzia de vezes ( por refeição!) para fazer a refeição que tinha destinado para nós. Quantas e quantas vezes eu lhe pedi que pusesse todos os ingredientes na cozinha nova e que começasse a cozinhar no fogão dessa cozinha, porque era muito cansativo andar de um lado para o outro: faltava uma frigideira ia-se à cozinha, faltava uma tigela ia-se à cozinha, faltava a margarina ia-se ao frigorífico que estava na cozinha, faltava uma colher e tínhamos que ir buscá-la à cozinha!!) eu ficava mesmo enervada com a situação, e a avó Dolores desvalorizava a situação e ainda se ria por eu estar sempre a refilar!!!
A avó Dolores é de uma geração ( que vai acabar com estas pessoas) que se habituou a sacrificar-se pelos outros, que se entregou uma vida inteiro para proporcionar aos outros bem estar, serenidade e alegria. 
Gostava muito que todos os netos escrevessem um pequeno texto a lembrar episódios  passados com a avó Dolores, era a melhor maneira de a homenagearmos e de perpetuarmos a sua memória  para que os mais pequeninos como o Xavier, a Joana e até o Tiago viessem a conhecer através das nossas palavras esta mulher maravilhosa, esposa dedicada e apaixonada, mãe sempre presente na vida dos filhos e mais tarde das noras ( que a adoptámos como mãe) , uma mulher que só dizia o indispensável, sabia ouvir e escutar e que não era pessoa para dar muitos conselhos, ouvia, escutava e por vezes limitava-se a sorrir...
A avó Dolores partiu no dia 25 de Fevereiro de 2015 às 6 horas da manhã, no Hospital de Stª Luzia, em Elvas

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Um bolo saído de um livro em viagem para oferecer aos Magos Reis.

Texto belíssimo da minha amiga Risoleta Pinto Pedro
Neste ainda dia dos Reis, em antecipação, um excerto de um livrinho que aí vem a caminho, faz sua viagem como qualquer mago, como qualquer rei. Ainda não terá revelado hoje seu título, mas apenas um dos subtítulos:

"UM APRECIADOR DE ROSAS, UM ADOLESCENTE, DUAS RAPARIGAS E UMA LOURA"

Pelo meio da ficção contém, a páginas tantas, a receita de um bolo que não sendo a mesma do bolo-rei, tem a mesma força simbólica deste. Cada ingrediente é um símbolo, a sua execução um ritual. Aqui fica como aperitivo para o livrinho que há-de chegar este ano, talvez nos primeiros meses, como agradecimento aos três Reis ou Magos que há tantos séculos repetem a viagem até ao menino, assim nos indicando o caminho em direção a nós:

" [...] resolvi fazer a festa do ouro da prata e da canela desse modo festejando, sem agredir sensibilidades mais laicas, o ouro, o incenso e a mirra.

Em homenagem ao tempo e à eternidade, fiz um bolo de ouro, prata, canela, incenso e mirra. Primeiro confeccionei o bolo e depois, enquanto cozia, escrevi a receita. Para nunca mais me sentir pássaro em cozinha de insone. Aqui fica a receita que não é estática mas estética e ética e como tal, aberta a aperfeiçoamentos:





NONA RECEITA


BOLO DE OURO, PRATA E CANELA


Grau de dificuldade: inclassificável


Pega-se na falta de tempo e arruma-se numa gaveta; não deixa crescer os bolos. Só então, munidos deste preciso levedante que é a ausência do que não existe, estamos preparados para o fazer. 


Começamos por procurar os ingredientes. Parte deles não encontramos nos supermercados. Começa-se por remexer em todas as antigas gavetas 


cuidado para não abrir a tal... 


e procuram-se as recordações douradas. As de prata recolhem-se da lua pela janela do quarto deixada entreaberta. Fecha-se a janela depois da meia-noite, após a recolha feita. Por causa das constipações e também para que não fujam. Quanto à canela, não é difícil encontrá-la no supermercado, mas convém intensificar-lhe o aroma à beira-rio, na memória das caravelas 


pedir, para isso, a ajuda de Cesário ..., 


ou junto de um misterioso barco aí ancorado e um dia descoberto com um ser muito amado.


Procura-se então um momento em que, na casa, os adolescentes estejam a dormir. 


São elementos muito perturbadores ao crescimento dos bolos, digo devoradores, sobretudo os mais cépticos, digo, gulosos


e começa-se por acender o Athanor, esse lento forno alquímico. À falta dele, serve o forno a gaz, que sempre o óptimo foi inimigo do possível, e não se podendo fazer a alquimia certa, faz-se, ao menos, a da humildade, o primeiro passo no caminho.


Depois de dispor ritualisticamente sobre a mesa os ingredientes, a saber:


- Farinha (cor de prata, obviamente)


- açúcar (dourado, claro)


- açúcar (prateado, pelos motivos que abaixo se explica)


- ovos (esse precioso sol semente)


- canela (dispensa apresentações, mas convém respirá-la bem, faz bem aos espirros, queria dizer, faz espirros, uma forma de lavar a alma)


- marmelada (de preferência de marmelos amadurecidos ao sol; se tiverem sido pintados por um pintor, melhor)


- chocapics da nestlé, passe a publicidade (porque é preciso saber sorrir)


- estrelitas, pelo mesmo motivo e também para trazer para dentro do nosso bolo uma fatia de céu.


- moedas douradas de chocolate das que há nas confeitarias.


- um ovo de chocolate envolto em prata desses que dávamos às crianças quando elas eram crianças e ainda não nos tinham ultrapassado em altura e continuamos a dar-lhes agora que pensam que já não são e já nos ultrapassam em altura.

Envolvem-se os ingredientes 


à excepção do açúcar prateado, das moedas douradas, do ovo de prata, dos chocapics, da marmelada e das estrelitas 


com muito amor e ao estilo e ao ritmo de cada um, e coloca-se a mistura dentro do Athanor 


mesmo disfarçado de forno vulgar.


Pelo meio, pode atender-se o telefone, mas só telefonemas de amor, palavras que não nos distanciem, nem nos descentrem.


Quando o coração o disser, volta-se ao fogo e salva-se o bolo, no momento certo.


Coloca-se sobre a pedra polida da bancada e com uma faca a que se segredou mil cuidados, corta-se ao meio, longitudinalmente e em movimentos circulares. Perfeitos. Convém ter trinado, digo treinado, antes, mas como se verá o trinado também não é descabido.
Separam-se as partes e sobre Malkuth 


para quem não saiba: a parte de baixo, o Mundo

coloca-se a marmelada, os chocapics e as estrelitas. Sopra-se lá para dentro um mantra de amor. Quem não souber, canta uma canção, que fica bem à mesma. Pode ser de embalar ou de exaltar. Depende do momento. Cobre-se com Kether 


para quem não souber, a coroa real, a parte de cima, aquela que todos já conhecemos antes de cairmos. Por isso construímos este bolo como uma escada de Jacob.


Chegou o momento de bater 


homeopaticamente 


umas claras que deixámos de parte com o açúcar prateado 


pormenor técnico: primeiro as claras; quando começar a desenhar-se pelo meio delas um castelo, junta-se o açúcar e continua-se, até o castelo estar bem firme sobre nuvens.


Cobre-se integralmente o bolo com o creme de nuvens prateadas 


o castelo dissolveu-se, de comoção e amor 


e finalmente decora-se perfeita e circularmente com as moedas de ouro, mais estrelas da nestlé e no centro, como qualquer semente, o ovo de prata.


Este bolo receita-se às pessoas de quem gostamos muito e também às outras.


Não se devora. Comunga-se.


As quantidades dependem muito do momento. Mais doçura, menos açúcar e vice-versa. A primeira hipótese é melhor mas a segunda também não é má, se não for frequente.


O Rubem gostou tanto da receita e do bolo, e talvez com saudades das Lições do Tonecas, sentiu estimulada a sua criatividade a ponto de iniciar uma redacção imaginando que era ainda menino ou que era a sua abandonada personagem e escrevia ..."
http://aluzdascasas.blogspot.pt/

Lua, romãs e outros mistérios

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Eu estava sentada numa sala de espectáculos (ultimamente ando bastante espectadora...) e ouvia, sem querer, a conversa atrás de mim. Era um casal e ela contava que uma amiga comum fizera uma reacção alérgica a algo, de tal modo que ficara a parecer "um bicho". Assim a descrevia. 

Repetia a comparação, mas a conversa não acabou aqui. A parte mais interessante veio a seguir.
 

- Então perguntei-lhe o que é que tinha comido, e ela respondeu-me que nada, para além do habitual. E eu: "Nada, nada?". E ela: "Bem, para além do habitual só comi uma romã enorme, lindíssima, que a minha sogra me trouxe!". Aí eu disse-lhe: "Ah! A tua sogra tentou envenenar-te com uma romã... ".

Neste ponto eu não quis ouvir mais e o Universo fez-me a vontade, porque o espectáculo recomeçou e eles tiveram de se calar. 

A história soou-me vagamente ao universo das narrativas tradicionais, começando pelo jardim do Éden com a maçã e continuando pela mitologia clássica e contos tradicionais da infância. A fruta tem sido um bocado maltratada na literatura, associada a bruxas, madrastas, sogras e mulheres malvadas em geral. Até dava para fazer uma tese em torno do tema: "A fruta na literatura da malvadez". Qualquer coisa assim, já alguém terá pensado nisso?
 

E eu pensei: Se é verdade o que dizem os cientistas, que existem numerosos ou mesmo infinitos mundos ou dimensões, acredito que exista um universo onde as maçãs e as romãs não surgem associadas a envenenamento e em que as sogras são vistas como pessoas simpáticas, gentis e fiáveis.
 

Acredito num mundo em que as hipóteses para a solução dos problemas são múltiplas, criativas e não estereotipadas.
 

Se bem percebi (o que não é pêra doce, e aqui entra também em cena a pêra...) pelas leituras que fiz sobre a mecânica quântica e o Bosão de Higgs, o universo é consciente e em permanente criação e nós, observadores do universo, criamos o universo em criação. Um paradoxo muito difícil de resolver e mesmo de compreender.
 

Mas se é assim e poderemos estar ao mesmo tempo, real e potencialmente, em inúmeros universos, podendo escolher aquele em que está a nossa consciência, eu escolherei aquele em que maçãs, romãs e sogras são inocentes e em que as amigas não se envenenam mutuamente com histórias venenosas a cheirar a enxofre.
 

Se isso puder acontecer neste mundo, fico contente, porque é um mundo muito belo. Até porque está a aproximar-se um ano que imagino, acredito e antevejo muito interessante, excitante e ímpar. Apesar do número par, o infinito oito. Mas se é infinito, não é par nem é ímpar, ou é tudo, e nesse mundo que eu escolho, a sintaxe não é a do "ou...ou", mas a do "e...e". Assim sendo, neste mundo que eu escolho criar como gosto, as maçãs são oferecidas ao ser amado e são conhecimento, as romãs são sementes e são amor, as sogras são as mães dos companheiros e das companheiras e são amorosas.
 

Quero estar nele. Entrar nele nesta passagem de quarta-feira*, como no dia em que nasci, com lua crescente, a tender para cheia, como quando nasci. Que este seja um renascimento para todos, sob a bênção da lua, esse ser doce entre maçã e romã.

( *Este texto foi escrito, e pela primeira vez publicado, numa quarta-feita em quarto-crescente, do velho para o novo ano)

Risoleta Pinto Pedro
http://www.unicepe.pt/


sábado, 3 de janeiro de 2015

ÀS PORTAS DE 2015

ÀS PORTAS DE 2015
Com 2015 a bater à porta, dedico aos meus amores (marido, filhos e netos), às amigas e aos amigos, a todos os meus leitores, com votos de felicidade e saúde, o poema que aqui deixo.
NOVO ANO
Sempre que recomeço
eu descuro o tempo
tentando seguir o próprio passo
pelo trilho do ano
que acabou
desenredando os nós
do seu baraço
E aquilo que é futuro
à minha frente
tanto pode ser
rosa como aço
Mas ao querer entender
um outro tempo
eu entreteço
sonho, poesia, liberdade
um ano de luz
no seu começo
Maria Teresa Horta, 31 de Dezembro de 2014

BEBER O CAFÉ PELO PIRES

Ontem a RTP passou cerca da 1 hora da manhã o filme de Manuel de Oliveira  - O Gebo e a Sombra. 

Ficha artística

Michael Lonsdale  Claudia Cardinale  Jeanne Moreau Leonor Silveira  Luís Miguel Cintra  Ricardo Trêpa

Ficha técnica

Adaptação e realização Manoel de Oliveira  a partir da peça deRaul Brandão  Fotografia Renato Berta  Décors Christian Marti Guarda-roupa Adelaide Trêpa  Som Henri Maikoff  MontagemValérie Loiseleux  Montagem de som e mistura Tiago Matos Direcção de produção Jacques Arhex, Joaquim Carvalho Produtores Luís Urbano, Sandro Aguilar e Martine de Clermont-Tonnerre  35mm, Cor, 91’, Dolby SRD, 1.85  © O SOM E A FÚRIA,MACT PRODUCTIONS 2012
Título original:  Gebo et l'Ombre
Género:
Drama      Classificação:
M/12
Outros dados:
POR/FRA, 2012, Cores, 95 min.
Apesar de viver no limiar da pobreza, Gebo continua a sua actividade de contabilista para sustentar Doroteia, a mulher, e Sofia, a nora. A existência daquelas três pessoas é triste e monótona, girando à volta da ausência de João, o filho, que ninguém sabe onde está ou as razões por que partiu. Apesar do velho senhor tentar encontrar maneiras de aliviar o sofrimento das duas mulheres, parece que nada consegue minimizar as suas dores. Até que, sem que já ninguém o esperasse, João regressa. E é a partir daquele momento que o equilíbrio familiar, já de si frágil, se rompe, dando origem a uma catástrofe....
Baseado na peça homónima de Raul Brandão (1867-1930), escrita em 1923, a mais recente obra do mestre Manoel de Oliveira é um retrato da pobreza, da honestidade e do sacrifício.
O "Gebo e a Sombra" teve a sua estreia mundial no início de Setembro de 2012, em dias sucessivos, no Festival de Veneza e na Cinemateca Francesa em Paris - onde a obra do realizador passou numa retrospectiva integral. PÚBLICO
Luis Miguel Cintra faz de amigo de Gebo, e apesar dele ser muito pobre, juntam-se em casa de Gebo para beberem café e conversarem. Quem serve o café é Leonor Silveira, nora de Gebo. Quando serve o café a LUis Miguel Cintra este vê que está muito quente, então põe o café no pires e bebe o café pelo pires.  Quando vi esta cena lembrei-me de quando era criança ia muitas vezes a casa da minha avó Bárbara e no final das refeições bebia-se sempre café por chávenas de café. Eu adoçava o café e depois passava-o para o pires e bebia-o. Sentia um prazer enorme a fazer aquilo. Não sei porquê, mas fazia-o sempre que lá bebia café. Um café muito fraco, mas que me sabia muito bem.   

Li uma critica ao filme neste site brasileiro  que achei bastante interessante
http://www.planocritico.com/critica-o-gebo-e-a-sombra/


quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

transição 2014 para 2015

A televisão está ligada no Programa da RTP1 da Voice... na passagem do ano

Apresentadores e júri, os meninos e as meninas  bonitos, bem vestidos,  bem penteados, bem arranjados com os dentes todos iguais, muito direitinhos, branquinhos e certinhos dizem clichés que não há pachorra para os ouvir :
"Que ninguem fique sozinho em 2015! e se estiver sozinho que vá ao Facebook..."
Daniela Mercury como brasileira que é,  faz um pequeno discurso e fala dos jovens que apoia e de Madala, a menina que ganhou o prémio Nobel da Paz em 2014.
O Rui Reininho diz que na viagem do Porto para Lisboa viu muitas cegonhas a chegar... muitos anos de vida....  dão-lhe todos os copos de champanhe para as mãos, porque ele foi convidado a sair do programa, há alguns meses, por se apresentar com uma bebedeira enorme!!!
Michael Carreira um bom ano ...
Catarina Furtado diz: Falta 1 minuto para a meia noite...
E chegou a porcaria de 2015!!! que vai ser a mesma merda   que foi 2014... e todos brindamos a algo que não sabemos se merece ser brindado!!!

Eu e o Zé brindamos com  licor de café... comemos as 12 passas e desejamos feliz ano novo 2015 ...
que cinismo!!! não nos apetece fazer nada, mas temos que festejar uma coisa que ignoramos... 2015 tem 365 dias que serão vividos dia a dia!!!
fogo de artificio  na capital e nas principais capitais da europa..  e agora no Funchal....  e agora fogo de artificio na capital ao som de Carlos do Carmo. e finalmente de Londres junto ao Rio Tamisa
E chega a locutora e começa a disparar com as nóticias más e derrotistas que os telejornais adoram deitar cá para fora. Deve ser para nos assustar ainda mais a viver nesta época do século XXI, que nos dá
notícias trágicas de Xangai- milhares de pessoas espezinhadas quando festejavam o ano novo... muitos mortos esmagados e asfixiados com os corpos dos outros que estavam num nível mais acima...

Estou a levar tudo para a critica
entramos na realidade... noticias  já a dizerem-nos coisas que não nos agradam...

Entrevista ao médico de serviço de urgências dos Hospitais de Coimbra-- 11 operações de urgência--- tudo está mais ou menos controlado... há uma pessoa a ser operada neste momento...noite tranquila nas urgências até  que comecem a chegar os que apanham tais bebedeiras que ficam em coma alcoólica , são os indesejáveis , mas que pela certa irão aparecer...

  são 0h e 15 minutos.. vou-.me deitar, estou farta disto    tenho dito

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O Natal da Aranha

Desde que encontrara aquele canto da casa que a aranha se sentia feliz. Era uma casa com mais de cem anos. As madeiras dos tectos estavam velhas e as paredes muito salitrosas deixavam cair a cal em flocos pelo chão. A casa estava desabitada. O dono da casa falecera há dois anos e a dona da casa decidira ir viver para casa da filha. Aos fins de semana, a dona da casa  ia para a casa. Como a aranha se encontrava na sua teia bem junto do tecto, entre a parede e uma trave do tecto, a senhora nunca a via. Ela sim, via-a  sempre que ela ia à casa de banho. Ouvia o bater ritmado da bengala de tripé e a princípio, escondia-se imediatamente no buraco entre a madeira carcomida e a parede esburacada. Depois, começou a perceber que a velhinha estava toda enrolada sobre si mesma, e que tinha um cuidado enorme em não descolar os olhos do chão com medo que este estivesse molhado e ela pudesse escorregar. Pouco a pouco, deixou de ter medo que ela a descobrisse.
A aranha vivia ali tranquila e à vontade. Passeava-se pelas paredes, remendava calmamente a teia quando uma mosca mais agressiva lutava com ela, de vez em quando resolvia aumentar mais um pouco da sua teia, e assim vivia no seu palácio como uma princesa.
A teia começou a ficar muito grossa. Era uma linda teia de aranha. Os seus filamentos, partindo do centro, eram muito bem feitos, muito bem organizados, criando um octógono perfeito no canto da parede.
A aranha não sabia há quanto tempo ali vivia, mas sentia-se dona e senhora daquela casa desabitada. Olhava as molduras penduradas nas paredes, com fotografias amarelecidas pelos anos, de senhores circunspectos de grandes bigodes e suíças a taparem-lhe as faces e senhoras de carrapito na cabeça, de blusas atadas até ao queixo, sorridentes dentro do limite que naquela época era aceite a uma senhora. Também havia molduras de fotografias de jovens, jovens que tinham falecido há muito e que já quase ninguém lembrava os seus nomes.
Faltavam poucos dias para o Natal. Os netos da dona da casa vinham passar o Natal à casa da avó, mas exigiam que a televisão estivesse em condições. Para a velhota ver a imagem tremida e com uma cor esbatida não tinha qualquer importância, contudo os netos disseram que só iriam  passar o Natal a casa da avó se a imagem da televisão fosse nítida e tivesse muitos canais.
Um dia, muito frio e sombrio, a aranha começou a ouvir uns barulhos estranhos na casa. Mulheres conversavam alto, chamavam umas pelas outras. Uma tentava arrojar um grande escadote que abriu com grande estrondo mesmo muito perto da sua teia. Só teve tempo de correr e esconder-se no buraco entre a trave do tecto e a parede. Estava cheia de medo. Nunca, desde que ali resolvera morar, ouvira tanto barulho e tanto alvoroço na casa. De tempos a tempos, ouvia o vozeirão de um homem, que perguntava olhando para cima onde estava a caixa de derivação da luz. Ainda no solo, este abriu a caixa enorme de latão cheia de ferramentas e uma das mulheres trouxe-lhe um rolo enorme de  fio eléctrico. Vinha colocar uma nova antena para a televisão. E o lugar ideal para o fazer, era mesmo no canto superior direito do tecto, onde a aranha vivia.
O homem olhou,  olhou  muito para o canto onde vivia a aranha, e disse para a mulher: -“Está
ali uma grande teia de aranha, traga-me uma vassoura para a tirar dali!!! Vou passar por ali o fio para a antena da televisão!! “
Pôs o escadote mesmo por baixo da teia de aranha, pegou na vassoura, subiu alguns degraus, e num ápice destruiu a teia  onde há muito meses a aranha vivera tranquila, e que tanto trabalho lhe tinha dado a fazer e preservar. Esta, muito escondidinha num buraquinho mínimo da trave, tremia como varas verdes. Pensava que era o seu fim, pois não via como sair daquela situação tão aflitiva!!!
As mulheres limpavam a casa, limpavam o pó, desarrumavam para varrerem atrás dos móveis , tiravam os retratos  das paredes e empilhavam-nos sem qualquer cuidado uns nos outros, caiavam as paredes, havia um reboliço que há muito a aranha não via.
O homem subiu ao escadote e com um berbequim eléctrico fez um barulho infernal que quase ia matando a aranha de susto. Esta não podia pensar em mexer-se, nem sequer pôr uma pata de fora!!! As paredes tremiam com a broca do berbequim que a todo o custo furava as paredes grossíssimas da casa até chegar ao telhado. Finalmente, o barulho acalmou e o homem começou a passar o fio de plástico branco que iria ligar a antena à televisão.
Em pouco tempo, o homem concluiu o trabalho. Tirou o escadote e arrumou-o a um canto do corredor da casa. As mulheres precisavam dele para limparem os candeeiros que pendiam dos tectos.
A aranha decidiu ficar muito sossegadinha no seu buraquinho. Sabia que se não desse nas vistas poderia ficar ali a viver mais uns tempos tranquilamente.
Mas não estava tranquila. Pensava nas pessoas que vinham da grande cidade, que não gostavam de aranhas e que um pequeno descuido podia ser  morte certa!!!!



Casa Branca, 22 de Dezembro de 2014
Zuzu Baleiro

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

COMO CONHECI ANTÓNIO TELMO

 Através de amigos como a Risoleta,  o Rui Arimateia, Hernâni Matos e outros sempre ouvi falar de António Telmo e da sua obra. Contudo, apesar de ter alguns livros seus, para além do de Contos ilustrado pelo Armando Alves, nunca privei com ele. Soube da sua morte, e das diversas homenagens que lhe têm sido feitas, mas como não tinha qualquer ligação afectiva e de amizade com  ele nunca estive presente em nenhuma. 
Agora, há cerca de 15 dias, o Hernâni Matos organizou, em Estremoz, a apresentação do livro dedicado ao Armando Alves e convidou-me para ir ler alguns textos. Foi nesse dia, que tive a oportunidade de conhecer Maria Antónia Vitorino, e naquele momento criou-se entre nós as duas uma empatia e uma comunhão de ideias , que senti que tinha encontrado ali uma amiga.
Trocámos números de telefones e a partir desse dia tenho tido oportunidade de ser convidada para sua casa, o que muito me honra.
Ao entrar no "santuário" de António Telmo senti uma emoção fortíssima, pois ali ainda se respira o ambiente em que António Telmo escreveu, pensou, meditou e viveu. Aquele escritório repleto de estantes carregadas de livros até ao tecto, onde em primeiro plano se podem ver molduras com retratos de António Telmo com várias personalidades ligadas ao estudo da língua Portuguesa, da filosofia, da pintura  deixou-me deslumbrada. Eu estava a ter a felicidade de poder olhar, apreciar, tocar.
A Mitó ( é assim que ela quer que eu a chame ) foi-me apresentar a filha Anahi, e aí ficámos sentadas numa salinha de estar onde ela está a convalescer de uma forte gripe. Conversámos, trocámos ideias, partilhámos muitas das nossas  ideias e dos nossos conhecimentos. A Mitó insistiu em oferecer-me um chá e num ambiente muito acolhedor passámos o resto da tarde, conversando as três, sobretudo de António Telmo, o homem que nos ligou. Fez-se de noite. Estava uma noite fria e gelada de Dezembro. Como eu tinha ido para casa da Mitó em pleno dia e com sol, não levei casaco, pois pensava não me demorar. 
A Mitó foi buscar um casaco de malha do António Telmo , que insistiu para que eu o vestisse, para poder sair à rua.
Eu lá fui eu, de casaco do António Telmo vestido, para minha casa. Sentia-me como se estivesse a viver um sonho; deslumbrada e feliz com aquela tarde tranquila, passada com duas mulheres maravilhosas. Um sonho bom , onde para terminar eu levava vestido o casaco de malha verde seco, de lã matizada com castanhos escuros e claros,  que com certeza tantas e tantas vezes António Telmo usara quando se sentava à secretária ou no sofá para escrever, ler ou pensar!!! 

Bem agora vamos à breve biografia para o site António Telmo - Vida e Obra

Maria Zulmira Varela Andrade Rodrigues Baleiro, conhecida entre familiares e amigos por Zuzu, nasceu em Casa Branca- Sousel, no ano de 1948. Oriunda de uma das mais antigas famílias da aldeia ( os Falcato) cresceu e viveu até à adolescência num ambiente de gente  com muito amor pela cultura, pelos livros e pela escrita. 
Aos 18 anos, foi trabalhar para o 9º Cartório Notarial de Lisboa. Casou e teve duas filhas. Sempre foi uma apaixonada pela leitura e por programas culturais.
Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante Francês/ Português na Faculdade de Letras de Lisboa, começando a leccionar Português e Francês nas escolas secundárias de Lisboa e na área da Grande Lisboa.
Mais tarde, em 1995, devido à morte súbita da sua filha Marta, restaurou a casa dos seus avós paternos e veio de novo viver para Casa Branca, indo leccionar as disciplinas de Português e Francês na Escola E, B 2, 3 de Sousel, até à data da sua aposentação, em 2011 e onde continua a viver.
Em 2004, fez a parte curricular do Mestrado em Estudos sobre as Mulheres na Universidade Aberta, de Lisboa, pois o estudo do género sempre a entusiasmou e apaixonou. Tem feito conferências nesta área, gosta de ler e dizer poesia em voz alta. Dedica-se à pintura e gosta de "alimentar" o seu blog com posts de vários temas. 
Pertence ao Núcleo  da Amnistia Internacional de Estremoz. É animadora no Lar de 3ª idade de Casa Branca, lendo e contando contos e lendas tradicionais aos idosos aí residentes. 
Desde que se reformou dá aulas, como voluntária, na disciplina de Poesia e Conto na Academia Sénior de Estremoz.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

o livro da Marta

Mas que excelente ideia. A Marta era sem dúvida a minha maior e mais querida amiga, de quem sinto tantas saudades. Os anos podem passar, mas penso nela muitas vezes. Pode parecer estranho, mas é verdade.
Quer memórias positivas, certo? Ou também que fale na ausência da Marta?
Muitos beijinhos, e vai ser um livro maravilhoso


Patrícia Lança  4 de Dezembro de 2014

terça-feira, 25 de novembro de 2014

MUDANÇA

Hoje, dia 25 de Novembro, pelas 15.30h, eu e a Joana Emília dinamizámos a 1ª Tertúlia " Uma Conversa por mês..."  da Universidade Sénior de Sousel, no auditório da Biblioteca Municipal de Sousel.
Tivemos uma assistência bastante interessada na apresentação das nossas propostas de trabalho e dos objectivos que nos propomos levar a cabo.
Uma Conversa por mês... terá lugar uma vez por mês, onde será convidada uma pessoa que domine o tema a trabalhar.
Li este texto Mudança de Clarice Lispector, adaptado por mim e a Joana Emília leu o poema de Pablo Neruda, Morre lentamente.
Foram sorteados 4 livros entre as pessoas presentes, um livro da Agatha Cristi, outro de contos, uma Bíblia Sagrada encadernada, e um livro sobre a Linguagem das Flores.


Sente-se noutra cadeira, do outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.
Mude por uns tempos a maneira de vestir. Dê os seus sapatos velhos. Em casa, nalguns dias, procure andar descalço. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, no campo ou no parque a ouvir o canto dos passarinhos.
Cumprimente os amigos e conhecidos a sorrir. Sorria!!
Veja o mundo de outras perspectivas. Mude!!
Abra e feche as gavetas e as portas com a mão esquerda. Durma do outro lado da cama... Depois, procure dormir  noutras camas. Assista a outros programas de televisão, compre outros jornais... leia outros livros. Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade.
Durma até mais tarde. Durma até mais cedo. Ouça música na cama. Relaxe. Aprenda uma palavra nova por dia numa língua estrangeira.
Corrija a postura, tente andar de costas direitas! Faça ginástica. Vá à natação. Brinque! Ria!
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos tempêros, novas cores, novas delícias.
Procure a novidade todos os dias. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor. A nova vida. Tente a mudança.
Procure novos amigos. Tente novos amores. Faça novas amizades.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.  Mude!!!
Almoce noutros locais, vá a outros restaurantes, beba outro tipo de bebida, compre pão noutra padaria. Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro supermercado... outra marca de iogurtes... outra marca de sabonete, outro dentífrico... Tome banho em novo horário. Use canetas de outras cores.
Troque de mala, de carteira, de boné, compre novos óculos, troque de carro.
Deite fora os velhos relógios, guarde os despertadores chatos, não seja escravo das horas!!
Abra conta noutro banco. Aprenda novas actividades, vá para a pintura, para coisas novas, vá a outro cabeleireiro, ao teatro, visite novos museus, visite novas cidades. Vá passear para outros lugares. Vá passear com o seu neto. Mude!!
Leia um livro novo, escreva outras poesias.
Lembre-se de que a Vida é uma só!!! E pense seriamente em procurar um outro emprego, um trabalho mais ligeiro, que lhe dê mais prazer, que seja mais digno, mais humano, se está reformado procure uma nova ocupação,
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo. Mas mude!!!
E aproveite para fazer uma viagem longa, se possível sem destino certo. Vá visitar um amigo que não vê há muitos anos. Vá visitar aquele lugar que sempre desejou conhecer.
Experimente coisas novas.  Troque novamente. Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que aquelas que já  conhecia, mas não é isso que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda !
Experimente a mudança pela pura alegria de viver: não tenha medo do risco, sem o qual a vida não vale a pena!

Texto de Clarice Lispector  (adaptado pela Profª Zuzu Baleiro)

MORRE LENTAMENTE
Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê, quem não ouve música,
Quem destrói o seu amor próprio,
Quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito.
Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
Quem não muda as marcas no supermercado,
Não arrisca vestir uma cor nova,
Não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere o "preto no branco" e os "pontos nos iis"
A um turbilhão de emoções indomáveis,
Justamente as resgatam brilho nos olhos,
Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho.
Quem não permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias, queixando-se da má sorte,
Ou da chuva incessante, desistindo de um projecto antes de iniciá-lo, 
Não perguntando sobre um assunto que desconhece.
E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre que estar vivo,
Exige um esforço muito maior do que o simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!

Pablo Neruda ( in Folha da Ala Sul)