sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

ISABEL

Não sabia o que sentia. Um aperto no peito, do lado do coração fazia-a respirar bem fundo, mas o oxigénio não chegava lá. Apetecia-lhe dar um grito, um aiiiiii,  dar um grande aiiiii…! E dizia para si: mas porque estou eu assim? Porque me apetece respirar tão fundo, dar um ai, que não seria um ai, seria um grito, um grito de leoa ferida?
 Mas não o poderia fazer… a vizinha do quintal do lado ia assustar-se e ia querer saber a razão daquele grito. Daquele grito que vinha bem cá de dentro… bem junto do coração…. Claro que saíra das cordas vocais… mas ele tinha-se formado muito, muito mais lá no fundo… Do lado esquerdo do coração que sentia tão apertado… junto ao buraco … aquele buraco que se formara no dia em que a filha tinha partido, de um modo tão inesperado, tinha partido para sempre, para o mundo sideral, para a estrela que a esperava desde que nascera.  
Isabel nunca mais foi a mesma, e sentia que em vez de se ter tornado mais meiga, mais tolerante, menos agressiva, sobretudo nas palavras, cada vez se tornava mais agreste, mais revoltada, mais zangada com a vida.
Diziam-lhe: Não há vida sem romance… e a maioria do romance é sempre bem negro.
Ela ouvia, mas não aceitava. Ouvia quem a queria ajudar mas não conseguia que as palavras das amigas lhe ficassem no cérebro… lhe mudassem a maneira de pensar ou de agir.
Tinha momentos em que lhe apetecia partir tudo o que estava à sua volta, partir com um grande estrondo a grande tigela de vidro, que sabia iria partir-se em mil pedacinhos, em mil pedacinhos que se espalhariam pela cozinha, por baixo dos armários, por baixo dos pés, e que depois ainda ia ter que apanhar, varrer todos aqueles vidros minúsculos que se esconderiam nos locais mais incríveis! Não lhe apetecia varrer , queria descanso… queria estar parada e calma, não lhe apetecia andar na cozinha a apanhar vidros despedaçados, minúsculos, invisíveis, bicudos… prontos a espetarem-se-lhe nas solas das pantufas e que se iriam alojar nos dedos dos pés, e de tão pequenos nem os conseguiria ver… só sentiria a dor aguda que lhe provocavam…
Tinha alturas em que lhe apetecia ser um pássaro e voar, voar e não mais voltar. Voar para um mundo onde não fosse obrigada a sorrir, a conviver, a olhar os rostos alegres, tristes , amargurados ou enrugados dos habitantes da vila. Não lhe apetecia ver ninguém… mas isso era anti-social… tinha que dizer bom-dia, olá, cumprimentar e sorrir a todos por quem passava. Interessava-se pela  mulher doente do homem da mercearia, por saber como o neto da senhora da retrosaria estava a crescer, quantos dentinhos já tinha, se já gatinhava… e todos, por quem passava,  pensavam que ela estava bem, que apesar do rosto carregado com que se olhava ao espelho e via os olhos tristes e cansados, tinha conseguido ultrapassar a dor da perda da filha… e ela tentava enganá-los sorrindo, falando, ouvindo os seus problemas e os seus lamentos… mas o que Isabel queria era não estar ali, queria estar fora daquele pequeno mundo…

Quando ia para perto do mar, olhava aquela vastidão de água, olhava e pensava como seria fácil entrar por ali adentro, devagar, muito devagar, e começar a perder o pé, e a sentir que a água iria entrar-lhe nos ouvidos, depois caminharia mais um pouco e ficaria submersa naquela água salgada… e deixar-se-ia ir… e não se debateria porque o que ela queria era ir… ir… ir para lá do horizonte… mesmo que para isso tivesse que engolir muita água, muita água salgada, amarga, amarga como era a sua vida…

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